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Exclusiva

Competitividade da ferramentaria depende de gestão, qualificação e ação coletiva

Diagnóstico de lideranças do setor aponta que o futuro das ferramentarias brasileiras passa pela profissionalização das PMEs, fortalecimento do capital humano e integração do ecossistema produtivo

A competitividade da indústria brasileira passa por um elo que raramente ocupa os holofotes, mas sustenta praticamente toda a manufatura nacional: a ferramentaria. Em um momento marcado pela pressão de concorrentes asiáticos, pelo envelhecimento da mão de obra especializada e pela necessidade de modernização das pequenas e médias empresas, lideranças do setor defendem que o futuro das ferramentarias será definido menos pela tecnologia disponível e mais pela capacidade de gestão, qualificação profissional e articulação do ecossistema.

Para analisar os rumos desse setor, o painel "Formação profissional na ferramentaria – a visão em longo prazo – do aprendiz ao especialista", realizado durante o Encontro Nacional de Ferramentariass (Enafer), que ocorreu nos dias 1° e 2 de junho na Fiesp, em São Paulo, reuniu lideranças das principais montadoras e sistemistas do país sob a mediação de Christian Dihlmann, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Ferramentais (Abinfer).

O painel foi composto por Márcio Mário Poffo, diretor da Union Moldes; Adilson Adalberto Matias e Fernando Ferrari, gerentes de ferramentaria da General Motors do Brasil; Fernando Martins, CEO da Continental; Leandro Pedraçolli, gerente de projetos da Gestamp; e Rafael Callegon Higa, gerente de engenharia de prensas e plástico da Toyota.

Gargalos do setor

O centro da fragilidade do setor ferramenteiro reside na alta liderança das pequenas e médias empresas. Fernando Martins, da Continental, argumentou de forma contundente que o gargalo atual é de gestão e governança, uma vez que o topo precisa estar devidamente preparado para garantir a consistência dos negócios.


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Como resposta a essa defasagem gerencial, Poffo defendeu a implementação de uma disciplina operacional rígida em sua própria empresa, orientada pelo cálculo rigoroso do OEE e pelo uso do método dos "5 porquês" para sanar falhas diretamente na causa raiz. O diretor detalhou que a eficiência produtiva exige encarar a parada de máquina como um pit stop de Fórmula 1: todas as etapas de preparação técnica devem ser executadas antes da interrupção programada, mitigando severamente o tempo ocioso do equipamento.

Retomada do capital humano via Senai

Como resposta direta à necessidade de rejuvenescimento e perpetuação do setor, as ações integradas entre a Abinfer e o Senai, consolidadas nos pilares de capital humano do Projeto Pódium, surgem como o alicerce para mitigar o apagão de mão de obra qualificada. Rompendo com a tendência histórica de cursos superficiais de curta duração, os painelistas destacaram o retorno do modelo de aprendizado profundo, evidenciado pelo robusto curso de aprendizagem industrial de 3.200 horas. Outro ponto alto do painel foi o sucesso do curso de especialização em projetos de ferramentas de pele automotiva, desenvolvido em estreita colaboração com a engenharia das próprias montadoras para sanar dores reais do mercado. 

O reflexo prático dessa abordagem foi validado por Adilson Matias, que destacou o aproveitamento imediato de profissionais da GM, onde ferramenteiros da companhia foram promovidos ao posto de projetistas graças à sólida base técnica adquirida no curso. Para uma bancada de líderes majoritariamente formada pelo próprio Senai entre as décadas de 1970 e 1990, essa intencionalidade no investimento em capacitação técnica de alto nível é um dos caminhos mais viáveis para alinhar a eficiência nacional aos rigorosos parâmetros de competitividade global

Alerta vermelho e urgência do associativismo

O cenário para os próximos anos exige urgência e uma mudança profunda no associativismo e na mentalidade de mercado. Ferrari trouxe um alerta realista sobre o tamanho da disparidade de escala diante dos concorrentes internacionais, lembrando que a escala asiática dilui os custos estruturais de forma massiva, tornando inviável competir sem intencionalidade institucional e empresarial. Rafael Callegon Higa acrescentou um diagnóstico estrutural complementar, pontuando que no Brasil as etapas de simulação, design e try-out ainda operam de forma fragmentada, em silos isolados.

O diagnóstico foi reforçado por uma conversa recente com um executivo sênior da Toyota Motor Corporation que estava há dois anos acompanhando os fornecedores brasileiros, o qual identificou exatamente esse mesmo gap em relação ao modelo japonês. Para superá-lo, Higa defendeu a necessidade de uma figura dedicada exclusivamente à condução de cada ferramental, do início ao fim do desenvolvimento, algo próximo do que se chama, no vocabulário japonês, de 'die owner' ou 'project leader’.

Diante disso, os líderes do setor reforçam que esperar o amadurecimento isolado da ferramentaria nacional é uma armadilha, restando ao empresariado acelerar a reestruturação gerencial, dominar seus indicadores e integrar o ecossistema local para não perder a relevância pela concorrência global.

Programa Molda Brasil

Competir globalmente exige enfrentar distorções severas de infraestrutura e política industrial. O Enafer levantou questões sobre a disparidade de preços do aço, o que prejudica frontalmente a competitividade local, com custos até 90% superiores aos do mercado internacional.

Diante do impacto desses insumos, Adilson Matias apontou que as regras atuais de fomento industrial, como o Programa Mover, muitas vezes esgotam seus recursos rapidamente em pesquisa e desenvolvimento sem reter a construção física do ferramental no país.

Como resposta a esse cenário, a Abinfer confirmou o envio ao Ministério do Desenvolvimento a proposta do programa Molda Brasil, que prevê a retenção de uma fatia de 2% sobre moldes importados para abastecer um Fundo Garantidor focado em renovação de maquinário, capacitação e tecnologia setorial. 

Tabela comparativa: desafios internos vs. externos da ferramentaria

Dimensão

Cenário Nacional / Desafios Gerenciais

Pressão Internacional / Escala Global

Matéria-Prima

Custo do aço local de 50% a 90% superior; alta concentração de mercado

Acesso a insumos globais desonerados e gradientes tecnológicos de metal duro

Escala e Custo

Baixo volume, sazonalidade e alto impacto do custo estrutural por unidade (burden)

Diluição massiva de custos fixos através de produção até 200 vezes maior

Governança

Gestão de PMEs centralizada na figura do dono; falta de medição rigorosa de perdas

Arranjos produtivos locais (clusters) altamente integrados e orientados por dados

Ecossistema

Fragmentação de etapas (simulação, design e try-out operando em silos)

Centralização das etapas sob a responsabilidade de um Project Leader (Die Owner)

O diagnóstico do Enafer 2026 deixa claro que a sobrevivência da ferramentaria será decidida nas mesas de tomada de decisão. A tecnologia da indústria 4.0 e a sofisticação técnica do Senai perdem força se as PMEs do setor continuarem operando sob o manto da gestão intuitiva e do isolamento produtivo. Superar a assimetria global exige o esforço conjunto que une a inteligência política da Abinfer à disciplina operacional de cada empresário.

O futuro do setor depende, fundamentalmente, da capacidade de transformar dados em estratégia e concorrentes locais em aliados de ecossistema.